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Vivemos em uma sociedade onde palavras voam com facilidade, julgamentos são emitidos com pressa e a empatia, muitas vezes, se perde no ruído. No entanto, a sabedoria de Jesus nos chama a uma reflexão muito mais profunda: o que realmente estamos expressando com nossas palavras?
Neste estudo, vamos mergulhar em uma das falas mais intensas de Jesus, registrada no Sermão do Monte. A expressão “Raca”, tão misteriosa e pesada, nos convida a pensar não apenas sobre o que falamos, mas sobre a alma por trás das palavras.
A palavra “Raca”
No evangelho de Mateus, Jesus afirma que quem chamar seu irmão de “Raca” estará sujeito ao fogo do inferno. Mas o que significa exatamente essa palavra?
A expressão aramaica “Raca” era uma forma de xingamento. No contexto da época, não era apenas uma ofensa vulgar, mas uma sentença contra o valor e a espiritualidade da pessoa insultada. Diferente de um desabafo impulsivo, era uma forma de dizer: “Você não vale nada. Nem diante de Deus.” Grave, não?
O mais curioso é que Mateus faz questão de manter a palavra original em aramaico, mesmo escrevendo seu evangelho em grego. Isso mostra o peso cultural e espiritual que ela carregava.
O coração era o centro do pensamento
Hoje, entendemos que o cérebro é o órgão responsável pelo pensamento. Mas no mundo antigo, especialmente na cultura hebraica, o coração era considerado o centro das emoções, decisões e raciocínio. Era dele que partia a música da alma — aquilo que revelava quem a pessoa realmente era.
Por isso, chamar alguém de “tolo” ou “Raca” ia além de uma crítica ao intelecto. Era uma ofensa à essência da pessoa, ao seu valor diante de Deus.
As palavras revelam o coração
Assim como uma canção revela muito sobre o compositor, nossas palavras dizem muito sobre nós. Jesus nos alerta que aquilo que sai da nossa boca é um reflexo do que está cheio o nosso coração.
Quando ofendemos, quando julgamos sem justiça, quando espalhamos palavras com desprezo — estamos mostrando que nossa melodia interna está desafinada.
A música do reino
A proposta de Jesus é outra. Ele nos convida a viver afinados com o Reino de Deus. Isso significa usar nossas palavras para edificar, consolar, corrigir com amor e promover a paz.
Fazemos parte de uma grande orquestra espiritual. Cada um de nós tem um papel. E quando nossas ações e palavras estão em sintonia com os valores do Reino, a música que sai de nós alcança os céus.
Julgar com sabedoria é diferente de condenar
Alguns usam esse ensino de Jesus para defender a ideia de que “ninguém pode julgar ninguém”. Mas a Bíblia não condena o julgamento justo — aquele baseado na verdade, na misericórdia e na responsabilidade.
O que Jesus condena é o julgamento precipitado, arrogante e hipócrita. Julgar para humilhar, excluir ou se sentir superior é pecado. Já discernir o certo do errado, repreender com amor e corrigir com sabedoria — isso é parte da missão cristã.
A história judaica de Raca
Um antigo relato do judaísmo conta que um rabino, cheio de orgulho por seus estudos da Torá, insultou um homem chamando-o de “Raca” por causa de sua aparência. O homem respondeu: “Reclame com o artesão que me fez.” Em outras palavras, ofender o outro por sua condição é, indiretamente, criticar o próprio Criador.
Esse relato ilustra perfeitamente a advertência de Jesus. As palavras têm consequências. E, muitas vezes, ferem não apenas pessoas — mas também a presença divina nelas.
A linguagem do Céu
Na vida cristã, cada palavra é uma nota. Cada frase é um acorde. E a forma como falamos com os outros mostra a nossa sintonia com o céu. Será que estamos tocando música celestial ou um ruído dissonante?
Pense em como suas palavras podem:
Levantar um irmão que caiu
Curar uma alma ferida
Inspirar alguém que perdeu a fé
Restaurar um relacionamento quebrado
Ou… destruir tudo isso em segundos
A boca fala do que está cheio o coração. E se o nosso coração está cheio de Cristo, nossas palavras vão refletir amor, sabedoria e graça.
Antes de soltar uma frase, pergunte a si mesmo: “Essa palavra tem o tom do Reino de Deus? Essa frase constrói ou destrói? Essa nota faz parte da música que Deus quer ouvir?”
Viver a fé cristã é como tocar um instrumento afinado pelo Espírito Santo. Quando somos guiados por Ele, até o silêncio se torna uma canção de paz.