Os 3 tipos de fé: reflexões racionais e espirituais
Ao longo da história, a fé tem sido um elemento central na vida humana. No entanto, nem toda fé é benéfica ou desejável. É possível distinguir ao menos três tipos de fé distintos: a fé cotidiana baseada em experiências corriqueiras; a fé espiritual, que orienta o indivíduo em direção a uma relação transcendente com Deus; e a fé perigosa, marcada pela irracionalidade e potencial destrutivo.
Este artigo busca apresentar uma análise crítica desses três tipos de fé, destacando a necessidade de equilíbrio entre fé e razão. Para isso, utilizará como base o pensamento do filósofo iluminista Voltaire, especialmente suas reflexões após o terremoto de Lisboa em 1755, que o levaram a questionar as interpretações religiosas e teológicas predominantes em sua época.
A fé cotidiana
A primeira forma de fé, e talvez a mais comum, é aquela que surge no cotidiano. Trata-se de uma crença baseada na experiência sensorial ou em padrões observados repetidamente. Por exemplo, ao observar nuvens escuras no céu, alguém pode afirmar que choverá em breve. Embora tal afirmação seja baseada em sinais naturais, ela ainda envolve um grau de incerteza — e, portanto, de fé.
Essa fé cotidiana é prática e funcional. Ela guia decisões simples, antecipações do que é provável ou esperado, e reflete o modo como o ser humano organiza o mundo ao seu redor. Ainda que não envolva transcendência, essa fé é uma espécie de aposta na coerência do mundo natural e social.
No entanto, confiar excessivamente nesse tipo de fé pode levar a erros de julgamento. Afinal, nem sempre aquilo que se espera com base na experiência realmente acontece. A fé cotidiana é útil, mas limitada.
A fé espiritual
A segunda forma de fé é a espiritual, entendida aqui como a crença em princípios, valores ou entidades transcendentais que escapam à verificação empírica, mas que oferecem sentido à existência.
No contexto cristão, essa fé é aquela que conduz à salvação. Ela se baseia na confiança em Deus, na esperança de vida eterna e na aceitação de uma verdade revelada. Trata-se de uma fé que transcende o visível, mas que, idealmente, dialoga com a razão.
O apóstolo Paulo, por exemplo, descreve a fé como parte de um culto racional (Romanos 12:1), o que sugere que o exercício da crença não deve excluir o uso da razão. A fé espiritual saudável, portanto, não é incompatível com o pensamento crítico. Ela pode coexistir com o raciocínio lógico, sem perder seu caráter devocional.
Essa forma de fé é frequentemente acompanhada de um senso moral elevado, engajamento social e compromisso ético. É uma fé que constrói e transforma.
A fé destrutiva
A terceira forma de fé, e a mais problemática, é aquela que se manifesta sem qualquer base racional e que pode conduzir à ruína individual e coletiva. Trata-se da fé cega, que rejeita questionamentos, promove fanatismo e, em casos extremos, legitima a violência.
Voltaire, importante pensador do Iluminismo, denunciou esse tipo de fé ao refletir sobre o terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755. Na ocasião, centenas de fiéis foram mortos em igrejas que desabaram, enquanto casas de prostituição permaneceram de pé. O evento abalou profundamente a visão teológica da época, que sustentava que Deus recompensava os justos e punia os ímpios.
Para Voltaire, aquele desastre evidenciava que o mundo não seguia uma lógica moral clara. Em resposta, ele afirmou que, embora acreditasse em Deus como criador (visão deísta), não via sinais de sua intervenção ativa na história.
Em uma de suas cartas, Voltaire advertiu:
“Ao nos deixarmos persuadir pela fé em coisas que parecem absurdas à nossa inteligência, cuidemos para não sacrificar assim a nossa razão na condução da vida.”
Esse pensamento sugere que a fé que despreza a razão não apenas enfraquece o discernimento individual, mas também pode abrir caminho para comportamentos injustos e irracionais. Voltaire ainda afirma:
“Aquele que tem o direito de vos tornar absurdos também tem o direito de vos tornar injustos.”
Ou seja, quando alguém aceita passivamente o absurdo, torna-se vulnerável a aceitar a injustiça. Tal fé, em vez de iluminar, obscurece.
Crimes em nome da fé
Voltaire foi um crítico severo da religião institucionalizada. Em sua visão, muitos dos crimes cometidos ao longo da história — guerras, perseguições, torturas — foram legitimados em nome da fé. Para ele, a fé irracional é a base para os piores abusos.
A história confirma essa análise. Guerras santas, inquisições, genocídios e intolerâncias diversas foram, muitas vezes, sustentadas por interpretações religiosas distorcidas, reforçadas por lideranças autoritárias e populações acríticas.
O crime cometido em nome de Deus, segundo essa linha de pensamento, é um dos mais graves, pois além de destruir vidas, deturpa a própria noção do sagrado. Quando a fé é usada como justificativa para a violência, ela deixa de ser um caminho de esperança e se torna um instrumento de dominação.
Caminhos que podem coexistir
Diferente do racionalismo — que absolutiza a razão e rejeita qualquer possibilidade metafísica —, a racionalidade permite que a fé seja examinada, refletida e amadurecida.
Ser racional não é o mesmo que ser cético em excesso. Trata-se, antes, de ser criterioso. A fé pode e deve ser objeto de análise, sem que isso a descaracterize. Quando bem equilibrada, ela se fortalece por meio do pensamento crítico.
Neste ponto, é importante diferenciar o crente do crédulo. O crente é aquele que crê com base em fundamentos, experiência e discernimento. Já o crédulo aceita qualquer coisa, sem análise. Essa diferença é essencial para compreender o valor de uma fé que contribui para a vida pessoal e social.
Fique atento
A fé é uma das expressões mais complexas do ser humano. No entanto, ela não é uniforme em suas manifestações. Existem formas de fé que edificam e fortalecem, e outras que desestruturam e destroem.