Porque o mal existe?
Poucas perguntas são tão provocantes quanto esta: “Se Deus é bom e todo-poderoso, por que o mal existe?”.
Essa questão, que muitos já ouviram em momentos de dor, dúvida ou reflexão, não nasceu no cristianismo moderno. Na verdade, ela é antiga — muito antiga.
O filósofo escocês David Hume (1711–1776), um dos grandes nomes do Iluminismo, retomou um argumento clássico atribuído a Epicuro, o pensador grego que viveu cerca de 300 anos antes de Cristo. Hume, cético e crítico da religião revelada, formulou a questão de maneira direta e impactante:
“Quer Deus impedir o mal, mas não pode? Então é impotente.
Pode, mas não quer? Então é malévolo.
Quer e pode? Então de onde vem o mal?”
Esse é o famoso trilema de Epicuro, reformulado por Hume — uma das reflexões mais desafiadoras da história da filosofia da religião.
O mal como problema lógico
Para entender Hume, precisamos primeiro olhar para Epicuro, o filósofo grego que inspirou o debate.
Epicuro não era exatamente ateu. Ele acreditava que os deuses existiam, mas que eram seres perfeitos, felizes e indiferentes aos humanos. Em sua visão, preocupar-se com o sofrimento humano seria um fardo incompatível com a perfeição divina.
Ou seja, os deuses existiam, mas não se importavam conosco. Eles viviam em uma espécie de eternidade serena, sem interferir nos dramas do mundo.
Essa ideia deu origem ao que chamamos de epicurismo, uma filosofia que valorizava a busca da felicidade e da tranquilidade interior (ataraxia), afastando-se das paixões e dos medos — inclusive o medo dos deuses e da morte.
Foi nesse contexto que surgiu o trilema do mal:
Deus (ou os deuses) é bom.
Deus é poderoso.
O mal existe.
Mas… se as três afirmações são verdadeiras, algo não fecha. Se Deus é bom e todo-poderoso, por que o mal ainda existe?
David Hume e o ceticismo Iluminista
Séculos depois, David Hume retomou essa questão no livro “Diálogos sobre a Religião Natural”. Ele vivia em plena era do Iluminismo, um tempo em que a razão e a ciência começaram a desafiar as antigas crenças religiosas.
Hume era cético, mas não um ateu militante. Ele não negava necessariamente a existência de Deus, mas duvidava que a razão humana pudesse provar algo sobre Ele.
Ao citar o trilema de Epicuro, Hume quis mostrar que a religião enfrentava um dilema racional aparentemente insolúvel. Se afirmamos que Deus é:
Onibenevolente (totalmente bom)
Onipotente (todo-poderoso)
Onisciente (sabe de tudo)
…então a existência do mal parece incoerente com essas três qualidades.
Hume coloca o leitor contra a parede: se o mal existe, então ou Deus não é tão bom quanto pensamos, ou não é tão poderoso, ou simplesmente não existe da forma que a religião o descreve.
Profundo, provocador e filosófico — Hume não queria apenas destruir a fé, mas estimular a reflexão.
O mal como desafio à fé Cristã
A pergunta de Hume ecoa fortemente na teologia cristã. Afinal, a Bíblia afirma claramente que:
Deus é bom (“O Senhor é bom e a sua misericórdia dura para sempre” – Salmos 100:5)
Deus é todo-poderoso (“Nada é impossível para Deus” – Lucas 1:37)
Deus é onisciente (“Antes que a palavra me chegue à língua, Tu já a conheces” – Salmos 139:4)
Mas, ao mesmo tempo, o mundo está cheio de dor, injustiça e sofrimento. Como conciliar essas duas realidades?
A teologia cristã oferece várias respostas possíveis, conhecidas como teodiceias (do grego theos = Deus + diké = justiça, ou seja, “a justiça de Deus”).
Vamos ver algumas das principais.
1. O livre-arbítrio
Uma das respostas mais conhecidas vem de Santo Agostinho (século IV).
Segundo ele, o mal não foi criado por Deus, mas surgiu do mau uso da liberdade concedida às criaturas. Deus nos deu o livre-arbítrio para escolher entre o bem e o mal.
Quando Adão e Eva desobedeceram no Éden, o pecado entrou no mundo — e com ele, a dor, o sofrimento e a morte.
Assim, o mal não é uma criação divina, mas uma consequência da liberdade humana.
Deus permite o mal porque valoriza a liberdade, e uma liberdade sem possibilidade de erro não seria liberdade verdadeira.
2. O mal como prova
Outra linha de pensamento, presente em autores como São Tomás de Aquino, diz que o mal pode ter um propósito pedagógico.
Muitas vezes, o sofrimento serve para:
Purificar o caráter;
Ensinar compaixão;
Gerar crescimento espiritual;
Mostrar nossa dependência de Deus.
Como disse o apóstolo Paulo:
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28).
Nesse sentido, Deus não causa o mal, mas usa o mal existente para produzir algo bom — uma ideia poderosa, que atravessou séculos de fé.
3. Esperança de redenção
Há ainda uma terceira abordagem, mais mística e existencial.
Alguns teólogos afirmam que o mal é um mistério que ultrapassa a razão humana. Não temos todas as respostas, mas temos promessas — especialmente a promessa da redenção em Cristo.
Na cruz, o próprio Deus sofreu. Jesus não fugiu da dor, mas a enfrentou, mostrando que Deus não está distante do sofrimento humano — Ele está presente nele.
Essa visão transforma completamente o trilema. O cristão não diz que o mal não existe; ele diz que Deus entrou na história para vencê-lo.
A pergunta permanece?
O problema do mal continua sendo um dos maiores desafios intelectuais e espirituais da humanidade. Epicuro o formulou há mais de dois mil anos, Hume o reforçou no Iluminismo, e nós ainda o sentimos no dia a dia — toda vez que algo injusto acontece.
Mas, para quem crê, o mal não tem a palavra final. A esperança cristã está em um Deus que, mesmo permitindo o sofrimento, promete um fim para toda dor.
“E Deus enxugará dos olhos toda lágrima; não haverá mais morte, nem pranto, nem dor” (Apocalipse 21:4).
E talvez, no fim das contas, o verdadeiro poder divino não seja eliminar o mal de imediato, mas transformar o mal em redenção.